Obesidade
Esteatose Hepática Não-Alcoólica: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento da Gordura no Fígado
Popularmente conhecida como gordura no fígado, doença pode se agravar e exigir transplante
Conhecida como gordura no fígado, a esteatose hepática não-alcoólica tem prevalência de 30% na população global. A doença é mais prevalente na América Latina e tem índice de mortalidade geral de 12,6 mortes para cada 1 mil pessoas, 4,2 para mortalidade por causa cardíaca, 2,83 para mortalidade por câncer extra-hepático e 0,92 para mortalidade por problemas do fígado 1.
As principais comorbidades associadas à esteatose hepática não-alcoólica são obesidade, em 51,34% dos pacientes, diabetes tipo 2, em 22,51% dos pacientes, hiperlipidemia, em 69,16% dos pacientes, hipertensão, em 39,34% dos pacientes, e síndrome metabólica, em 42,54% dos pacientes 2.
Os dados corroboram o entendimento da obesidade como doença sistêmica, que piora ou causa diversas comorbidades, segundo a gastroenterologista especializada em gastroenterologia, hepatologia e endoscopia digestiva Liliana Mendes. A especialista explica a evolução da doença, enfatizando que os pacientes que têm Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica, conhecida como MASLD na sigla em inglês (Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease), podem estar com inflamação associada e então são considerados como portadores de esteatohepatite de causa metabólica, MASH, na sigla em inglês (Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis).
“Temos tecido adiposo visceral e subcutâneo. A gordura sistêmica, quando ultrapassa nossa capacidade de armazenamento, se acumula nas vísceras. O que não é necessário para o organismo acaba armazenado no fígado. A esteatose pode, então, evoluir para uma esteato-hepatite, que, se não tratada, pode evoluir para fibrose, cirrose e até câncer de fígado. Em alguns casos, evolui diretamente para câncer. Quanto mais comorbidades, quanto mais descompensado estiver o paciente, maior o risco", detalha Liliana.
O consumo de alimentos ultraprocessados, já relacionado a obesidade e diabetes tipo 2, também está ligado a esteatose hepática não-alcoólica, resistência à insulina e síndrome metabólica 3.Essa é uma doença do mundo moderno. Com o barateamento dos alimentos, as pessoas passaram a comer mais ultraprocessados. Quando ingeridos em excesso, liberam substâncias que são depositadas nas células do fígado, órgão responsável pelo metabolismo dos alimentos no organismo. Essas substâncias se acumulam nos hepatócitos e podem causar inflamação”, detalha Luiz Carneiro, cirurgião do aparelho digestivo e professor titular da disciplina de Transplantes de Fígado e Órgãos do Aparelho Digestivo do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Como é o diagnóstico da esteatose hepática não-alcoólica?
De acordo com o professor, gastrocirurgião e endoscopista Gustavo Quadros, nos quadros leves, a esteatose hepática pode não apresentar sintomas ou o paciente pode trazer ao consultório queixas comuns a outras condições clínicas, como fadiga, desconforto abdominal, barriga inchada, dor de cabeça, enjoos e vômitos. Em geral, os pacientes descobrem a esteatose hepática ao procurar assistência médica para emagrecer. “Muitas vezes, eles já chegam com a função hepática alterada ou com uma inflamação mais adiantada”, conta.
O diagnóstico é feito por exames, como a ultrassonografia abdominal ou a ecografia, mas, em alguns casos, as imagens não identificam a cirrose:
“O médico também irá pedir exames de sangue para avaliar os níveis de alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST), que, na maior parte das vezes são normais, mas, mesmo assim, pode haver lesão no fígado. A próxima etapa é avaliar a rigidez hepática de forma não invasiva. Isso pode ser feito pelo FIB-4 (idade, AST, ALT e plaquetas) ou por meio da elastografia”, conforme pontua Liliana.
A ultrassonografia, porém, é menos eficiente em pacientes obesos 4.esses casos, de acordo com Carneiro, a recomendação é que o fígado seja escaneado por tomografia computadorizada ou ressonância magnética. “Todos os obesos devem fazer exames de imagem e, os com IMC acima de 35, precisam fazer tomografia ou ressonância, mas em alguns casos, eles não cabem nas máquinas ou o procedimento se tornar desconfortável, por causa do período de apneia", alerta.
“Outra alternativa é a biópsia hepática (procedimento guiado por ultrassom que remove uma pequena amostra do fígado para análise), mas nem todos os pacientes estão abertos a esse procedimento", pondera afirma a cirurgiã geral e endoscopista intervencionista Anna Carolina Hoff.
Com os resultados dos exames, a doença é então estratificada em três estágios: 1, em que a gordura se acumula em 5% a 33% das células do fígado, 2, com índice entre 34% e 66%, e 3, acima de 66% 5.
Quais são as consequências da esteatose hepática não-alcoólica?
Liliana explica que a esteatose hepática é silenciosa e pode acompanhar o paciente por anos, sem outras complicações. Porém, em casos de inflamação (MASH) e degeneração dos hepatócitos, a doença pode progredir para fibrose. “Quando a inflamação ultrapassa seis meses de repetição, pode haver surgimento de cicatrizes no fígado, que chamamos de fibrose. Da fibrose, o paciente pode desenvolver cirrose, quando o fígado fica endurecido e com problemas de funcionamento, o que afeta a produção de proteínas, fator de coagulação e o metabolismo da bilirrubina.”, enumera Liliana.
Pacientes com esteatose hepática não-alcoólica e cirrose podem apresentar sintomas como ascite (acúmulo de líquido no abdômen), sangramento de varizes causado por hipertensão portal (aumento da pressão sanguínea na veia porta, que leva sangue do intestino ao fígado) e encefalopatia portossistêmica (doença que afeta as funções cerebrais e é causada quando o fígado não consegue remover as toxinas do sangue)6. “Quase 20% dos pacientes com MASH se tornarão cirróticos dentro de 5 a 10 anos. A MASH é também associada ao aumento da inflamação sistêmica e predispõe o paciente a morte por causa cardiovascular", comenta Liliana. A esteato-hepatite é fator de risco para o carcinoma hepatocelular (câncer de fígado): cerca de 14% dos pacientes com cirrose induzida por estato-hepatite desenvolvem esse tipo de câncer 6.
Além disso, em estágio avançado, a esteatose hepática pode demandar um transplante de fígado. Nos Estados Unidos, a doença já é a segunda causa desse tipo de transplante e, na Europa, tem sido a indicação de transplante de fígado com crescimento mais rápido nos últimos 20 anos 7. “Os números também estão crescendo aqui no Brasil. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), até 2010, menos de 2% dos pacientes que transplantávamos tinham o fígado comprometido por esteatose hepática não-alcoólica. Agora, esse número está chegando a 25%”, conta Carneiro.
Como tratar a esteatose hepática não-alcoólica?
Os entrevistados afirmam: a melhor forma de tratar a esteatose hepática e suas complicações é mudar os hábitos de vida e perder peso. “O início do tratamento da esteatose hepática é a dieta, evitar alimentos gordurosos e melhorar a rotina física, o que já melhora também a função hepática. Porém, o melhor resultado será obtido com o tratamento da obesidade em si”, afirma Quadros.
A recomendação é que o paciente faça exercícios aeróbicos de intensidade moderada de 150 a 200 minutos por semana, coma mais vegetais e frutas, e reduza o consumo de ácidos graxos saturados, gordura total, ácidos graxos trans-saturados e frutose. Estudos mostram que essas modificações de comportamento reduzem a gordura corporal e visceral, os índices de colesterol e triglicerídeos, a resistência à insulina e os marcadores de inflamação8. “Se o paciente conseguir mudar seu padrão comportamental nos primeiros estágios, a esteatose estaciona e raramente evolui. A perda de 10% do peso já traz enormes benefícios”, complementa Carneiro.
O indicador mais robusto de resolução da esteatose hepática metabólica é o grau de perda de peso, já que reduz o suprimento de ácidos graxos do fígado, a inflamação do tecido adiposo e a secreção de citocinas pró-inflamatórias, além de melhorar a sensibilidade à insulina e a histologia do fígado. Uma perda de peso superior a 10% também diminui o risco de diabetes, doenças cardiovasculares, e melhora a fibrose do fígado em pelo menos um estágio8.
“A quantidade de células de gordura no nosso organismo não vai mudar, mas o tamanho vai. Pacientes obesos estão com essas células inchadas e, quando perdem peso e elas diminuem, deixam de entranhar nos órgãos. Isso vai diminuir os eventos tromboembólicos, o risco de diabetes, a síndrome metabólica e trazer anos de vida ao paciente. Além disso, o fígado tem uma capacidade muito boa de se regenerar e pode até reverter a esteatose hepática", conta Anna Carolina.
Quando a mudança de estilo de vida não surte os efeitos esperados, novas abordagens podem ajudar o paciente em sua jornada de perda de peso e reversão da esteatose hepática. “Pacientes com IMC acima de 27 e outras comorbidades já necessitam de uma estratégia medicamentosa, e, com a nova proposta de conceituar obesidade pré-clinica e obesidade clínica, estamos avançando na indicação do tratamento medicamentoso da obesidade de forma cada vez mais precoce. É importante intervir da forma mais precoce possível”, argumenta Liliana. As chamadas canetas emagrecedoras (agonistas do GLP-1) têm sido usadas para reduzir os níveis de ALT, AST e triglicerídeos acumulados no fígado e podem, até mesmo, levar à remissão da esteatose hepática 9.
“Porém, o único tratamento medicamentoso aprovado para tratar a MASH é o Resmetirom, mas seu custo elevado limita o acesso”, pondera Liliana.
Tratamentos por via endoscópica são também eficazes na perda de peso e tratamento da esteatose. Além de diminuir o índice de massa corporal e a circunferência abdominal, o balão intragástrico comprovadamente reduziu os índices de alanina aminotransferase, gama-glutamiltransferase, hemoglobina glicada e triglicerídeos10. A solução, porém, é temporária: o paciente fica com o balão por seis ou 12 meses, conforme orientação médica. “O procedimento é um catalisador da mudança de hábitos. O paciente precisa ter consciência de que nada é milagroso. Sem a participação do indivíduo, há pouca resposta. A manutenção dos resultados é a fase mais desafiadora. O raciocínio para a doença crônica não é de cura, mas de controle, de monitoramento, para evitar recorrências”, argumenta Quadros.
Anna lembra que outra técnica recomendada é a gastroplastia endoscópica, com resultados promissores na regulação dos hormônios, sensação de saciedade e melhora na secreção de insulina. “É uma alternativa que mexe tanto na anatomia do paciente quanto nos centros de saciedade. É um jeito de tratar a obesidade em estágios menos avançados e antes que resulte em comorbidades maiores”, esclarece.
Por fim, a cirurgia bariátrica é indicada para pacientes com IMC acima de 35, não só em casos de esteatose hepática, mas também quando há indicação para transplante de fígado11, 12. “Nos Estados Unidos, a bariátrica já é feita até mesmo junto com o transplante, mas considero o risco muito grande. O ideal é fazer antes do transplante, para já se submeter ao procedimento com o peso mais definido e reduzir os riscos da cirurgia”, avalia Carneiro.
Nos Estados Unidos, 35% dos pacientes ainda estão obesos no momento do transplante de fígado e essa condição pode piorar devido ao tratamento com imunossupressores pós-transplante e um estilo de vida sedentário. Os pacientes obesos na lista para o transplante têm o risco de mortalidade aumentado e, pós-transplante, podem novamente desenvolver esteato-hepatite e fibrose. Por outro lado, uma perda de peso de 5% pode reduzir a esteatose hepática, se chegar a 7% pode levar à remissão da esteatose hepática não-alcoólica e, ao atingir 10%, pode induzir à regressão da fibrose e até mesmo melhorar as funções do fígado de tal maneira que o paciente saia da fila do transplante13.
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