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Recorte do início do texto resumido do artigo, com no máximo 3 linhas de parágrafo e término em reticências. Como são artigos em maior destaque, o texto introdutório pode ser um pouco maior, como um resumo da matéria de verdade e que já traga alguma informação para o público mesmo que a pessoa não clique para ler a matéria completa, é um direito dela e somos todos livres…

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Tecnologia para cuidar da próstata chega aos rincões da Amazônia

Sistema Urinário

Tecnologia para cuidar da próstata chega aos rincões da Amazônia

Por Dr. Ricardo Vita, urologista 
 
A saúde do homen é muitas vezes negligenciada, por diversas razões culturais, pessoais e regionais. Essa é uma realidade que se torna ainda mais evidente e preocupante em áreas remotas como a Amazônia. Nessa região, marcada por desafios de infraestrutura e pela vasta presença de comunidades indígenas e ribeirinhas, o acesso limitado aos serviços de saúde agrava a adesão masculina aos cuidados preventivos e tratamentos médicos. Essa combinação de fatores coloca em risco a qualidade de vida e a longevidade de muitos homens que ali habitam.  


A Hiperplasia Prostática Benigna (HPB), também chamada de próstata aumentada, é uma doença crônica e afeta cerca de 50% dos homens aos 60 anos e até 90% aos 85 anos de idade (1). Em geral, agravos que afetam a glândula são mais facilmente tratáveis em centros urbanos, os quais têm infraestrutura de saúde mais desenvolvida e proporcionam maior acesso a medicações e tecnologias de ponta. 

A escassez na oferta dos serviços aos indígenas e ribeirinhos gera um grave impacto em suas saúdes e modo de vida, prejudicando suas atividades essenciais, como a pesca e a caça. Sem o tratamento adequado, esses pacientes podem tornar-se dependentes permanentes de sondas vesicais, desfecho extremo da progressão da HPB, quando esta provoca falência da bexiga.  


Entre outubro e novembro deste ano, uma expedição de saúde inédita foi realizada na Amazônia, teve como um dos focos a saúde masculina da população indígena da Terra Indígena Alto Rio Negro. A iniciativa partiu da ONG Expedicionários da Saúde (EDS), internacionalmente reconhecida, que mapeou, em outubro de 2023, mais de 180 homens potencialmente portadores de HPB.

Nessas áreas remotas há uma grande dificuldade em manter os pacientes em terapia medicamentosa de longo prazo, como é o caso da HPB, incidindo em tratamentos incompletos, intermitentes e ineficazes, o que incorre em maior risco de complicações, como a retenção urinária, cálculos vesicais, infecções urinárias e, até, insuficiência renal.

A busca pela melhor solução levou em conta toda complexidade logística e estrutural para aliar eficiência, custo, baixo índice de complicação, rápida recuperação e retorno às respectivas comunidades. Todos equipamentos, materiais, insumos e medicações foram provisionados e deslocados para a comunidade escolhida meses antes da expedição.

A iniciativa contou com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Secretaria da Saúde Indígena (Sesai), do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro e do Exército Brasileiro. 


O tratamento escolhido foi a tecnologia Rezūm™, que aplica terapia por vapor de água para tratar o aumento da próstata, considerado ideal para ser levado a áreas remotas.

Simples, de rápida execução e minimamente invasivo, a estratégia elimina o tecido em excesso, que causa obstrução urinária, sem a necessidade de cirurgias invasivas e demoradas. O procedimento é realizado, em média, em 5 minutos e o paciente é liberado imediatamente após acordar da sedação, visto que não é necessária anestesia geral.


A partir da triagem inicial e com base em critérios rigorosos, 80 homens foram selecionados para avaliação presencial com médico urologista durante a expedição. Desses, 50 foram atendidos na avaliação presencial, utilizando uma escala visual adaptada, que consiste em um escore para avaliação de sintomas urinários, visando quebrar a barreira de comunicação decorrente da diversidade de idiomas de cada etnia.

Também foi realizada ultrassonografia para avaliação do tamanho prostático e saúde da bexiga. Para indicação do procedimento foram considerados os seguintes critérios: sintomas urinários que impactam diretamente a qualidade de vida, próstata menor que 100g e interesse do paciente em realizar o tratamento. 


O centro cirúrgico móvel foi montado na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), em Assunção do Içana, em meio à floresta amazônica. O feito exigiu planejamento e inovação para garantir eficiência e segurança.

A estrutura foi composta por tendas de alta qualidade, projetadas para evitar o contato direto com o solo e a umidade da floresta. Materiais impermeáveis e isolantes térmicos foram utilizados para criar um ambiente controlado, com temperatura adequada e condições estéreis. A ONG Expedicionários da Saúde foi a responsável pela expedição e montagem destas estruturas. 


Para a realização do procedimento, a unidade foi equipada com mesa cirúrgica, sistemas de iluminação, ar-condicionado, torre de vídeo e de anestesia e monitoramento de sinais vitais. Apesar de algumas limitações estruturais, que impactaram no tempo de execução em alguns casos, a equipe adaptou-se às condições, mantendo a segurança e eficácia. 


O Rezūm™ provou ser uma solução eficaz e adaptável, mesmo em condições desafiadoras, como as encontradas nesta localidade. A simplicidade do método e a necessidade mínima de recursos e medicamentos foram fundamentais para o sucesso da iniciativa.

Um dos destaques foi a redução progressiva no tempo total de sala ao longo dos procedimentos, alcançando um tempo médio de apenas 37 minutos desde a admissão do paciente até sua saída. 


O pós operatório dos pacientes foi realizado em redário em um barracão, acompanhado por enfermeiros, técnicos de enfermagem e voluntários, com supervisão médica do urologista até a retirada da sonda vesical, momento no qual todos retornaram às suas comunidades. A não necessidade de lavagem da bexiga, como acontece em praticamente todas outras alternativas cirúrgicas da próstata, foi essencial não só para a escolha da técnica, como para seu sucesso.

 
Essa expedição reforça a importância da preparação e do treinamento de equipe, além de destacar o potencial transformador de iniciativas inovadoras em regiões remotas. O sucesso dos procedimentos na Amazônia também exemplifica como avanços tecnológicos e abordagens criativas podem expandir o acesso a cuidados de saúde de alta qualidade. Soluções simples que transformam vidas. 

Incontinência urinária após o câncer de próstata: o tabu masculino que ainda precisa de solução

Sistema Urinário

Incontinência urinária após o câncer de próstata: o tabu masculino que ainda precisa de solução

Por Dr. Alexandre Fornari, Coordenador do Departamento de Disfunções Miccionais da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) 
 
O avanço da medicina tem proporcionado a milhares de homens a cura do câncer de próstata, uma das doenças mais prevalentes na população masculina. No entanto, para muitos, a vitória sobre o câncer pode vir acompanhada de um desafio persistente e, muitas vezes, silenciado: a incontinência urinária. Essa condição, que afeta uma parcela significativa dos pacientes submetidos à prostatectomia radical, impacta profundamente a qualidade de vida e a autoestima, exigindo uma abordagem mais ampla e acessível. 


A incontinência urinária masculina é caracterizada pela perda involuntária de urina. Após a cirurgia de retirada da próstata (prostatectomia radical), ela se torna comum devido à proximidade da próstata com o esfíncter urinário, o músculo responsável por controlar a saída da urina. Durante o procedimento, pode ocorrer uma lesão nesse esfíncter, levando à incontinência. 


Inicialmente, a incontinência pode ser transitória, melhorando nos primeiros meses após a cirurgia. Contudo, em cerca de 3% a 4% dos pacientes, a condição persiste de forma significativa, tornando-se um problema crônico. Os principais fatores de risco para essa persistência incluem idade avançada, doenças metabólicas como diabetes, um estado geral de saúde comprometido, próstatas muito grandes e cirurgias consideradas mais difíceis. 


A perda urinária vai muito além de um inconveniente físico. Ela afeta drasticamente a qualidade de vida dos pacientes, levando a um isolamento social preocupante. Muitos homens se afastam de familiares e amigos, deixam de participar de atividades sociais e até mesmo de sair de casa, movidos pelo medo do odor da urina ou da vergonha de molhar as roupas. Essa reclusão pode desencadear problemas psicológicos graves, como depressão e ansiedade. 


Além do sofrimento emocional, há o impacto físico. O contato constante da urina com a pele pode causar dermatite amoniacal, uma condição dolorosa que deixa a pele avermelhada, edemaciada e macerada na região genital. 


A gravidade da incontinência também influencia diretamente o tratamento e o custo. Quanto mais severa a perda, maior a necessidade de fraldas e produtos de higiene, elevando os gastos e dificultando ainda mais a rotina do paciente. 


A incontinência urinária masculina ainda é um tema cercado de tabus. Homens, em particular, tendem a evitar falar sobre o assunto, o que contribui para a falta de busca por tratamento. Essa vergonha é um dos maiores entraves para que a condição seja adequadamente diagnosticada e tratada. É fundamental quebrar esse estigma e encorajar os homens a procurarem ajuda. 


É importante ressaltar que a incontinência urinária também afeta a vida sexual. Muitos homens experimentam uma diminuição significativa do desejo e da atividade sexual, o que agrava ainda mais o impacto na qualidade de vida. 


Após o diagnóstico, a incontinência urinária pós-prostatectomia deve ser avaliada quanto à sua gravidade e causas. Uma avaliação completa busca identificar fatores que possam piorar a condição, como o consumo excessivo de líquidos ou um diabetes descompensado. 


A primeira linha de tratamento geralmente envolve mudanças de hábito, adequação da ingestão de líquidos e fisioterapia pélvica. Essas abordagens conservadoras são importantes e podem trazer melhora em muitos casos. Slings e fisioterapia podem ser efetivos em casos leves a moderados, mas, nos casos severos, o tratamento deve ser realizado com o esfíncter urinário artificial. No entanto, para pacientes com incontinência moderada a grave que não respondem a essas terapias, o tratamento cirúrgico se torna a opção mais eficaz. 


Entre as opções cirúrgicas, destaca-se o implante do esfíncter urinário artificial. Este dispositivo é indicado para incontinência urinária moderada a grave que persiste após, geralmente, um ano da cirurgia de prostatectomia, sem melhora com outras abordagens. 


O esfíncter urinário artificial é um dispositivo implantável que simula a função natural do esfíncter. Ele é composto por um manguito que envolve a uretra, uma bomba manual implantada no escroto e um reservatório. O manguito comprime a uretra, impedindo a saída de urina. Quando o paciente deseja urinar, ele aciona a bomba, que esvazia o manguito, permitindo a passagem da urina. Após a micção, o manguito se enche novamente, restaurando a continência. 


Este procedimento é considerado seguro, com um tempo médio de cirurgia de cerca de 1 hora e 30 minutos e uma internação de um a dois dias. O tempo de recuperação é de aproximadamente 40 dias, período necessário para a ativação do dispositivo. Os benefícios são imensos: o paciente recupera o controle urinário, a autoestima e a capacidade de retomar suas atividades diárias e sociais. 


O perfil ideal para o implante do esfíncter urinário artificial é um paciente jovem, com boa destreza manual e que apresente incontinência de esforço pura, sem outras condições que possam interferir no funcionamento da bexiga. 


Apesar da eficácia comprovada e dos benefícios transformadores, o acesso ao esfíncter urinário artificial ainda é um desafio no Brasil. Nos planos de saúde, o procedimento está no Rol da ANS e é coberto, bastando que o médico indique o tratamento. No entanto, no Sistema Único de Saúde (SUS), a realidade é diferente. 
A ausência do esfíncter urinário artificial na lista de procedimentos da CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) impede sua cobertura em larga escala na rede pública. Isso gera uma profunda desigualdade na jornada de cuidado, pois pacientes que não podem arcar com o procedimento de forma particular ficam sem acesso a uma solução que poderia restaurar sua dignidade e qualidade de vida. 


Em 2023, apenas 132 procedimentos de implante de esfíncter urinário artificial foram registrados na saúde suplementar. Considerando que cerca de 5.800 pacientes são submetidos à prostatectomia radical no SUS e mais de 9.000 nos convênios anualmente, e que uma parcela significativa desses pacientes pode desenvolver incontinência grave, é evidente que realizamos muito menos procedimentos do que o número de pacientes que poderiam se beneficiar. 


Os principais entraves para a ampliação desse tratamento no SUS incluem a falta de profissionais treinados para o implante, o desconhecimento por parte de alguns serviços sobre a eficácia da tecnologia e, em muitos casos, a falta de indicação por parte de médicos que atuam na área oncológica. Muitos pacientes não são tratados porque a solução não lhes é apresentada. 


É imperativo que a sociedade, os tomadores de decisão e a comunidade médica se unam para ampliar a conscientização e o acesso ao tratamento da incontinência urinária masculina. A incorporação do esfíncter urinário artificial no SUS é um passo fundamental para garantir que todos os homens, independentemente de sua condição socioeconômica, tenham a chance de recuperar sua qualidade de vida após a cura do câncer. 


Precisamos que mais urologistas estejam cientes da importância de identificar e encaminhar pacientes com incontinência urinária, mesmo que leve ou moderada, para avaliação e tratamento adequado. Muitos homens que se submetem à cirurgia de próstata e ficam com perda de urina, mesmo que em menor grau, são subestimados. É crucial que esses homens busquem ativamente um urologista que possa oferecer o tratamento adequado ou encaminhá-los a quem o faça. 


A conscientização deve ser ampliada em todos os níveis: para a população, para que os homens busquem ajuda sem vergonha; para os profissionais de saúde, para que indiquem o tratamento correto; e para os gestores públicos, para que invistam em tecnologias que transformam vidas. 


A incontinência urinária masculina pós-prostatectomia não é uma sentença. É uma condição tratável, e o esfíncter urinário artificial é uma prova disso. Ao garantir o acesso a essa tecnologia, não apenas restauramos a continência, mas devolvemos a esses homens a dignidade, a autoestima e a liberdade de viver plenamente.*

*Artigo publicado no dia 19/09/25. O esfíncter urinário artificial foi oficialmente incorporado ao SUS no dia 8 de janeiro de 2026, por meio da publicação da Portaria SCTIE/MS nº 102. 


 

Fibrilação Atrial: Protocolos que salvam vidas e evitam AVCs podem também reduzir custos nos hospitais

Coração

Fibrilação Atrial: Protocolos que salvam vidas e evitam AVCs podem também reduzir custos nos hospitais

Por dr. Marden Tebet, médico cardiologista intervencionista 


Como cardiologista, lido diariamente com as consequências preocupantes da fibrilação atrial (FA). Essa arritmia, que afeta, em média, de 2 a 4% da população¹, e alarmantes 10% dos idosos acima de 80 anos². A FA aumenta significativamente o risco de acidente vascular cerebral (AVC) devido à formação de coágulos no coração, que podem se deslocar para o cérebro e obstruir o fluxo sanguíneo. Estima-se que a FA aumente em até 5 vezes o risco de AVC, tornando-se um dos principais fatores de risco modificáveis para essa condição grave.  

A projeção indica que, somente nos Estados Unidos, serão mais de 12 milhões de pacientes com FA até 2050³, o que torna essa questão ainda mais urgente. A boa notícia é que temos ferramentas eficazes para prevenir o AVC em pacientes com FA. A má notícia é que, em muitos hospitais, essas ferramentas não estão sendo utilizadas em todo o seu potencial. 

A anticoagulação é, sem dúvida, a pedra angular da prevenção de AVC na FA. No entanto, nem todos os pacientes podem se beneficiar dessa terapia. Em muitos casos, pacientes com FA não podem ou não devem usar anticoagulantes devido a sangramentos, interações medicamentosas ou outras condições clínicas. Isso os deixa desprotegidos e vulneráveis ao AVC. É nesse cenário que a oclusão do apêndice atrial esquerdo (OAAE) se torna uma alternativa crucial. Estudos clínicos robustos demonstram que a OAAE é tão eficaz quanto os anticoagulantes na prevenção de AVC em pacientes com FA, com a vantagem adicional de eliminar o risco de sangramento associado ao uso contínuo de medicamentos anticoagulantes. 


Apesar de sua eficácia comprovada e de sua segurança, a oclusão do apêndice atrial esquerdo (OAAE) ainda é subutilizada em muitos hospitais brasileiros. Enquanto nos Estados Unidos realizam-se cerca de mil procedimentos por semana, no Brasil, em 2024, foram realizados apenas 400 mil. Essa discrepância alarmante revela uma lacuna crítica nos protocolos de tratamento da FA e uma falta de familiaridade com o procedimento por parte de muitos profissionais de saúde. A discussão ainda gira, principalmente, em torno dos anticoagulantes, negligenciando a OAAE como uma opção valiosa. 


A anticoagulação é, sem dúvida, a pedra angular da prevenção de AVC na FA. No entanto, nem todos os pacientes podem se beneficiar dessa terapia. Em muitos casos, pacientes com FA não podem ou não devem usar anticoagulantes devido a sangramentos, interações medicamentosas ou outras condições clínicas. Isso os deixa desprotegidos e vulneráveis ao AVC. É nesse cenário que a oclusão do OAAE se torna uma alternativa crucial. 


A OAAE é um procedimento minimamente invasivo que consiste em fechar o apêndice atrial esquerdo, uma pequena bolsa no coração onde a maioria dos coágulos sanguíneos se forma em pacientes com FA. Ao ocluir essa estrutura, eliminamos a principal fonte de trombos e reduzimos drasticamente o risco de AVC, oferecendo uma proteção comparável à anticoagulação para pacientes que não podem utilizá-la. 


Como médico, vejo de perto o impacto dessa negligência. Pacientes que poderiam se beneficiar da OAAE acabam sofrendo AVCs incapacitantes, com consequências para suas vidas e para suas famílias. Além do sofrimento, a falta de protocolos adequados para a FA também tem um impacto significativo nos custos do sistema de saúde. O tratamento de um acidente vascular cerebral é caro e complexo, e muitas vezes exige internações prolongadas e reabilitação intensiva. A prevenção, nesse caso, é não apenas mais humana, mas também mais econômica. 


É hora de mudar essa realidade. Os hospitais precisam implementar protocolos abrangentes de FA que incluam a OAAE como uma opção terapêutica a ser considerada em pacientes com contraindicações à anticoagulação. Esses protocolos devem ser baseados em evidências científicas sólidas e devem ser adaptados às necessidades específicas de cada paciente, considerando a estratificação de risco com o escore CHA₂DS₂-VASc. 


Além disso, é fundamental investir em educação médica continuada para capacitar os profissionais de saúde sobre os benefícios e as indicações da iniciativa. Muitos pacientes com FA estão dentro do hospital, e não no consultório, e é crucial que os médicos generalistas, cardiologistas hospitalares e plantonistas estejam cientes dessa opção. A criação de um sistema de alerta, um “red flag”, para pessoas com sangramentos ou eventos adversos relacionados à anticoagulação, pode auxiliar na identificação de candidatos à OAAE. 


A implementação de protocolos abrangentes não é apenas uma questão de boa prática médica, mas também uma questão de responsabilidade social. Ao proteger nossos pacientes do AVC, estamos não apenas salvando vidas, mas também reduzindo custos e melhorando a qualidade de vida de toda a população.

 
Portanto, apelo aos gestores hospitalares, aos cardiologistas e a todos os profissionais de saúde: vamos unir forças para implementar protocolos de FA que realmente façam a diferença. A vida de nossos pacientes pode depender disso. 

Gordura no fígado e obesidade: o que é MASLD, riscos e como tratar

Obesidade

Gordura no fígado e obesidade: o que é MASLD, riscos e como tratar

Popularmente conhecida como gordura no fígado, doença pode se agravar e exigir transplante

 

Conhecida como gordura no fígado, a esteatose hepática não-alcoólica tem prevalência de 30% na população global. A doença é mais prevalente na América Latina e tem índice de mortalidade geral de 12,6 mortes para cada 1 mil pessoas, 4,2 para mortalidade por causa cardíaca, 2,83 para mortalidade por câncer extra-hepático e 0,92 para mortalidade por problemas do fígado 1. 

As principais comorbidades associadas à esteatose hepática não-alcoólica são obesidade, em 51,34% dos pacientes, diabetes tipo 2, em 22,51% dos pacientes, hiperlipidemia, em 69,16% dos pacientes, hipertensão, em 39,34% dos pacientes, e síndrome metabólica, em 42,54% dos pacientes 2.

Os dados corroboram o entendimento da obesidade como doença sistêmica, que piora ou causa diversas comorbidades, segundo a gastroenterologista especializada em gastroenterologia, hepatologia e endoscopia digestiva Liliana Mendes.  A especialista explica a evolução da doença, enfatizando que os pacientes que têm Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica, conhecida como MASLD na sigla em inglês (Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease), podem estar com inflamação associada e então são considerados como portadores de esteatohepatite de causa metabólica, MASH, na sigla em inglês (Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis).

“Temos tecido adiposo visceral e subcutâneo. A gordura sistêmica, quando ultrapassa nossa capacidade de armazenamento, se acumula nas vísceras. O que não é necessário para o organismo acaba armazenado no fígado. A esteatose pode, então, evoluir para uma esteato-hepatite, que, se não tratada, pode evoluir para fibrose, cirrose e até câncer de fígado. Em alguns casos, evolui diretamente para câncer. Quanto mais comorbidades, quanto mais descompensado estiver o paciente, maior o risco", detalha Liliana.

O consumo de alimentos ultraprocessados, já relacionado a obesidade e diabetes tipo 2, também está ligado a esteatose hepática não-alcoólica, resistência à insulina e síndrome metabólica 3.Essa é uma doença do mundo moderno. Com o barateamento dos alimentos, as pessoas passaram a comer mais ultraprocessados. Quando ingeridos em excesso, liberam substâncias que são depositadas nas células do fígado, órgão responsável pelo metabolismo dos alimentos no organismo. Essas substâncias se acumulam nos hepatócitos e podem causar inflamação”, detalha Luiz Carneiro, cirurgião do aparelho digestivo e professor titular da disciplina de Transplantes de Fígado e Órgãos do Aparelho Digestivo do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Como é o diagnóstico da esteatose hepática não-alcoólica?

De acordo com o professor, gastrocirurgião e endoscopista Gustavo Quadros, nos quadros leves, a esteatose hepática pode não apresentar sintomas ou o paciente pode trazer ao consultório queixas comuns a outras condições clínicas, como fadiga, desconforto abdominal, barriga inchada, dor de cabeça, enjoos e vômitos. Em geral, os pacientes descobrem a esteatose hepática ao procurar assistência médica para emagrecer. “Muitas vezes, eles já chegam com a função hepática alterada ou com uma inflamação mais adiantada”, conta. 

O diagnóstico é feito por exames, como a ultrassonografia abdominal ou a ecografia, mas, em alguns casos, as imagens não identificam a cirrose:

“O médico também irá pedir exames de sangue para avaliar os níveis de alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST), que, na maior parte das vezes são normais, mas, mesmo assim, pode haver lesão no fígado. A próxima etapa é avaliar a rigidez hepática de forma não invasiva. Isso pode ser feito pelo FIB-4 (idade, AST, ALT e plaquetas) ou por meio da elastografia”, conforme pontua Liliana.

A ultrassonografia, porém, é menos eficiente em pacientes obesos 4.esses casos, de acordo com Carneiro, a recomendação é que o fígado seja escaneado por tomografia computadorizada ou ressonância magnética. “Todos os obesos devem fazer exames de imagem e, os com IMC acima de 35, precisam fazer tomografia ou ressonância, mas em alguns casos, eles não cabem nas máquinas ou o procedimento se tornar desconfortável, por causa do período de apneia", alerta.  

“Outra alternativa é a biópsia hepática (procedimento guiado por ultrassom que remove uma pequena amostra do fígado para análise), mas nem todos os pacientes estão abertos a esse procedimento", pondera afirma a cirurgiã geral e endoscopista intervencionista Anna Carolina Hoff.  

Com os resultados dos exames, a doença é então estratificada em três estágios: 1, em que a gordura se acumula em 5% a 33% das células do fígado, 2, com índice entre 34% e 66%, e 3, acima de 66% 5.   

Quais são as consequências da esteatose hepática não-alcoólica?

Liliana explica que a esteatose hepática é silenciosa e pode acompanhar o paciente por anos, sem outras complicações. Porém, em casos de inflamação (MASH) e degeneração dos hepatócitos, a doença pode progredir para fibrose. “Quando a inflamação ultrapassa seis meses de repetição, pode haver surgimento de cicatrizes no fígado, que chamamos de fibrose. Da fibrose, o paciente pode desenvolver cirrose, quando o fígado fica endurecido e com problemas de funcionamento, o que afeta a produção de proteínas, fator de coagulação e o metabolismo da bilirrubina.”, enumera Liliana. 

Pacientes com esteatose hepática não-alcoólica e cirrose podem apresentar sintomas como ascite (acúmulo de líquido no abdômen), sangramento de varizes causado por hipertensão portal (aumento da pressão sanguínea na veia porta, que leva sangue do intestino ao fígado) e encefalopatia portossistêmica (doença que afeta as funções cerebrais e é causada quando o fígado não consegue remover as toxinas do sangue)6. “Quase 20% dos pacientes com MASH se tornarão cirróticos dentro de 5 a 10 anos. A MASH é também associada ao aumento da inflamação sistêmica e predispõe o paciente a morte por causa cardiovascular", comenta Liliana. A esteato-hepatite é fator de risco para o carcinoma hepatocelular (câncer de fígado): cerca de 14% dos pacientes com cirrose induzida por estato-hepatite desenvolvem esse tipo de câncer 6.

Além disso, em estágio avançado, a esteatose hepática pode demandar um transplante de fígado. Nos Estados Unidos, a doença já é a segunda causa desse tipo de transplante e, na Europa, tem sido a indicação de transplante de fígado com crescimento mais rápido nos últimos 20 anos 7. “Os números também estão crescendo aqui no Brasil. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), até 2010, menos de 2% dos pacientes que transplantávamos tinham o fígado comprometido por esteatose hepática não-alcoólica. Agora, esse número está chegando a 25%”, conta Carneiro.

Como tratar a esteatose hepática não-alcoólica?

Os entrevistados afirmam: a melhor forma de tratar a esteatose hepática e suas complicações é mudar os hábitos de vida e perder peso. “O início do tratamento da esteatose hepática é a dieta, evitar alimentos gordurosos e melhorar a rotina física, o que já melhora também a função hepática. Porém, o melhor resultado será obtido com o tratamento da obesidade em si”, afirma Quadros.  

A recomendação é que o paciente faça exercícios aeróbicos de intensidade moderada de 150 a 200 minutos por semana, coma mais vegetais e frutas, e reduza o consumo de ácidos graxos saturados, gordura total, ácidos graxos trans-saturados e frutose. Estudos mostram que essas modificações de comportamento reduzem a gordura corporal e visceral, os índices de colesterol e triglicerídeos, a resistência à insulina e os marcadores de inflamação8. “Se o paciente conseguir mudar seu padrão comportamental nos primeiros estágios, a esteatose estaciona e raramente evolui. A perda de 10% do peso já traz enormes benefícios”, complementa Carneiro.

O indicador mais robusto de resolução da esteatose hepática metabólica é o grau de perda de peso, já que reduz o suprimento de ácidos graxos do fígado, a inflamação do tecido adiposo e a secreção de citocinas pró-inflamatórias, além de melhorar a sensibilidade à insulina e a histologia do fígado. Uma perda de peso superior a 10% também diminui o risco de diabetes, doenças cardiovasculares, e melhora a fibrose do fígado em pelo menos um estágio8.

“A quantidade de células de gordura no nosso organismo não vai mudar, mas o tamanho vai. Pacientes obesos estão com essas células inchadas e, quando perdem peso e elas diminuem, deixam de entranhar nos órgãos. Isso vai diminuir os eventos tromboembólicos, o risco de diabetes, a síndrome metabólica e trazer anos de vida ao paciente. Além disso, o fígado tem uma capacidade muito boa de se regenerar e pode até reverter a esteatose hepática", conta Anna Carolina.

Quando a mudança de estilo de vida não surte os efeitos esperados, novas abordagens podem ajudar o paciente em sua jornada de perda de peso e reversão da esteatose hepática. “Pacientes com IMC acima de 27 e outras comorbidades já necessitam de uma estratégia medicamentosa, e, com a nova proposta de conceituar obesidade pré-clinica e obesidade clínica, estamos avançando na indicação do tratamento medicamentoso da obesidade de forma cada vez mais precoce. É importante intervir da forma mais precoce possível”, argumenta Liliana. As chamadas canetas emagrecedoras (agonistas do GLP-1) têm sido usadas para reduzir os níveis de ALT, AST e triglicerídeos acumulados no fígado e podem, até mesmo, levar à remissão da esteatose hepática 9.

“Porém, o único tratamento medicamentoso aprovado para tratar a MASH é o Resmetirom, mas seu custo elevado limita o acesso”, pondera Liliana.

Tratamentos por via endoscópica são também eficazes na perda de peso e tratamento da esteatose. Além de diminuir o índice de massa corporal e a circunferência abdominal, o balão intragástrico comprovadamente reduziu os índices de alanina aminotransferase, gama-glutamiltransferase, hemoglobina glicada e triglicerídeos10. A solução, porém, é temporária: o paciente fica com o balão por seis ou 12 meses, conforme orientação médica. “O procedimento é um catalisador da mudança de hábitos. O paciente precisa ter consciência de que nada é milagroso. Sem a participação do indivíduo, há pouca resposta. A manutenção dos resultados é a fase mais desafiadora. O raciocínio para a doença crônica não é de cura, mas de controle, de monitoramento, para evitar recorrências”, argumenta Quadros.

Anna lembra que outra técnica recomendada é a gastroplastia endoscópica, com resultados promissores na regulação dos hormônios, sensação de saciedade e melhora na secreção de insulina. “É uma alternativa que mexe tanto na anatomia do paciente quanto nos centros de saciedade. É um jeito de tratar a obesidade em estágios menos avançados e antes que resulte em comorbidades maiores”, esclarece.

Por fim, a cirurgia bariátrica é indicada para pacientes com IMC acima de 35, não só em casos de esteatose hepática, mas também quando há indicação para transplante de fígado11, 12. “Nos Estados Unidos, a bariátrica já é feita até mesmo junto com o transplante, mas considero o risco muito grande. O ideal é fazer antes do transplante, para já se submeter ao procedimento com o peso mais definido e reduzir os riscos da cirurgia”, avalia Carneiro. 

 

Nos Estados Unidos, 35% dos pacientes ainda estão obesos no momento do transplante de fígado e essa condição pode piorar devido ao tratamento com imunossupressores pós-transplante e um estilo de vida sedentário. Os pacientes obesos na lista para o transplante têm o risco de mortalidade aumentado e, pós-transplante, podem novamente desenvolver esteato-hepatite e fibrose. Por outro lado, uma perda de peso de 5% pode reduzir a esteatose hepática, se chegar a 7% pode levar à remissão da esteatose hepática não-alcoólica e, ao atingir 10%, pode induzir à regressão da fibrose e até mesmo melhorar as funções do fígado de tal maneira que o paciente saia da fila do transplante13. 

 

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