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Tecnologia para cuidar da próstata chega aos rincões da Amazônia

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Por Dr. Ricardo Vita, urologista 
 
A saúde do homen é muitas vezes negligenciada, por diversas razões culturais, pessoais e regionais. Essa é uma realidade que se torna ainda mais evidente e preocupante em áreas remotas como a Amazônia. Nessa região, marcada por desafios de infraestrutura e pela vasta presença de comunidades indígenas e ribeirinhas, o acesso limitado aos serviços de saúde agrava a adesão masculina aos cuidados preventivos e tratamentos médicos. Essa combinação de fatores coloca em risco a qualidade de vida e a longevidade de muitos homens que ali habitam.  


A Hiperplasia Prostática Benigna (HPB), também chamada de próstata aumentada, é uma doença crônica e afeta cerca de 50% dos homens aos 60 anos e até 90% aos 85 anos de idade (1). Em geral, agravos que afetam a glândula são mais facilmente tratáveis em centros urbanos, os quais têm infraestrutura de saúde mais desenvolvida e proporcionam maior acesso a medicações e tecnologias de ponta. 

A escassez na oferta dos serviços aos indígenas e ribeirinhos gera um grave impacto em suas saúdes e modo de vida, prejudicando suas atividades essenciais, como a pesca e a caça. Sem o tratamento adequado, esses pacientes podem tornar-se dependentes permanentes de sondas vesicais, desfecho extremo da progressão da HPB, quando esta provoca falência da bexiga.  


Entre outubro e novembro deste ano, uma expedição de saúde inédita foi realizada na Amazônia, teve como um dos focos a saúde masculina da população indígena da Terra Indígena Alto Rio Negro. A iniciativa partiu da ONG Expedicionários da Saúde (EDS), internacionalmente reconhecida, que mapeou, em outubro de 2023, mais de 180 homens potencialmente portadores de HPB.

Nessas áreas remotas há uma grande dificuldade em manter os pacientes em terapia medicamentosa de longo prazo, como é o caso da HPB, incidindo em tratamentos incompletos, intermitentes e ineficazes, o que incorre em maior risco de complicações, como a retenção urinária, cálculos vesicais, infecções urinárias e, até, insuficiência renal.

A busca pela melhor solução levou em conta toda complexidade logística e estrutural para aliar eficiência, custo, baixo índice de complicação, rápida recuperação e retorno às respectivas comunidades. Todos equipamentos, materiais, insumos e medicações foram provisionados e deslocados para a comunidade escolhida meses antes da expedição.

A iniciativa contou com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Secretaria da Saúde Indígena (Sesai), do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro e do Exército Brasileiro. 


O tratamento escolhido foi a tecnologia Rezūm™, que aplica terapia por vapor de água para tratar o aumento da próstata, considerado ideal para ser levado a áreas remotas.

Simples, de rápida execução e minimamente invasivo, a estratégia elimina o tecido em excesso, que causa obstrução urinária, sem a necessidade de cirurgias invasivas e demoradas. O procedimento é realizado, em média, em 5 minutos e o paciente é liberado imediatamente após acordar da sedação, visto que não é necessária anestesia geral.


A partir da triagem inicial e com base em critérios rigorosos, 80 homens foram selecionados para avaliação presencial com médico urologista durante a expedição. Desses, 50 foram atendidos na avaliação presencial, utilizando uma escala visual adaptada, que consiste em um escore para avaliação de sintomas urinários, visando quebrar a barreira de comunicação decorrente da diversidade de idiomas de cada etnia.

Também foi realizada ultrassonografia para avaliação do tamanho prostático e saúde da bexiga. Para indicação do procedimento foram considerados os seguintes critérios: sintomas urinários que impactam diretamente a qualidade de vida, próstata menor que 100g e interesse do paciente em realizar o tratamento. 


O centro cirúrgico móvel foi montado na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), em Assunção do Içana, em meio à floresta amazônica. O feito exigiu planejamento e inovação para garantir eficiência e segurança.

A estrutura foi composta por tendas de alta qualidade, projetadas para evitar o contato direto com o solo e a umidade da floresta. Materiais impermeáveis e isolantes térmicos foram utilizados para criar um ambiente controlado, com temperatura adequada e condições estéreis. A ONG Expedicionários da Saúde foi a responsável pela expedição e montagem destas estruturas. 


Para a realização do procedimento, a unidade foi equipada com mesa cirúrgica, sistemas de iluminação, ar-condicionado, torre de vídeo e de anestesia e monitoramento de sinais vitais. Apesar de algumas limitações estruturais, que impactaram no tempo de execução em alguns casos, a equipe adaptou-se às condições, mantendo a segurança e eficácia. 


O Rezūm™ provou ser uma solução eficaz e adaptável, mesmo em condições desafiadoras, como as encontradas nesta localidade. A simplicidade do método e a necessidade mínima de recursos e medicamentos foram fundamentais para o sucesso da iniciativa.

Um dos destaques foi a redução progressiva no tempo total de sala ao longo dos procedimentos, alcançando um tempo médio de apenas 37 minutos desde a admissão do paciente até sua saída. 


O pós operatório dos pacientes foi realizado em redário em um barracão, acompanhado por enfermeiros, técnicos de enfermagem e voluntários, com supervisão médica do urologista até a retirada da sonda vesical, momento no qual todos retornaram às suas comunidades. A não necessidade de lavagem da bexiga, como acontece em praticamente todas outras alternativas cirúrgicas da próstata, foi essencial não só para a escolha da técnica, como para seu sucesso.

 
Essa expedição reforça a importância da preparação e do treinamento de equipe, além de destacar o potencial transformador de iniciativas inovadoras em regiões remotas. O sucesso dos procedimentos na Amazônia também exemplifica como avanços tecnológicos e abordagens criativas podem expandir o acesso a cuidados de saúde de alta qualidade. Soluções simples que transformam vidas. 

FONTES

1 - Berry SJ, Coffey DS, Walsh PC, et al. The development of human benign prostatic hyperplasia with age. J Urol. 1984 Sep;132(3):474-9. 
 
2 - Silva, Caroline Santos et al. “Luts-V: A new simplified score for assessing lower urinary tract symptoms in men.” International braz j urol : official journal of the Brazilian Society of Urology vol. 47,3 (2021): 525-532. doi:10.1590/S1677-5538.IBJU.2020.0278 


Artigo de autoria do Dr. Ricardo Vita, médico da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), originalmente publicado na Veja Saúde. Este conteúdo está sendo reproduzido no Saber da Saúde mediante autorização. Acesse a versão original em: https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/tecnologia-para-cuidar-da-prostata-chega-aos-rincoes-da-amazonia/

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Incontinência urinária após o câncer de próstata: o tabu masculino que ainda precisa de solução

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Incontinência urinária após o câncer de próstata: o tabu masculino que ainda precisa de solução

Por Dr. Alexandre Fornari, Coordenador do Departamento de Disfunções Miccionais da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) 
 
O avanço da medicina tem proporcionado a milhares de homens a cura do câncer de próstata, uma das doenças mais prevalentes na população masculina. No entanto, para muitos, a vitória sobre o câncer pode vir acompanhada de um desafio persistente e, muitas vezes, silenciado: a incontinência urinária. Essa condição, que afeta uma parcela significativa dos pacientes submetidos à prostatectomia radical, impacta profundamente a qualidade de vida e a autoestima, exigindo uma abordagem mais ampla e acessível. 


A incontinência urinária masculina é caracterizada pela perda involuntária de urina. Após a cirurgia de retirada da próstata (prostatectomia radical), ela se torna comum devido à proximidade da próstata com o esfíncter urinário, o músculo responsável por controlar a saída da urina. Durante o procedimento, pode ocorrer uma lesão nesse esfíncter, levando à incontinência. 


Inicialmente, a incontinência pode ser transitória, melhorando nos primeiros meses após a cirurgia. Contudo, em cerca de 3% a 4% dos pacientes, a condição persiste de forma significativa, tornando-se um problema crônico. Os principais fatores de risco para essa persistência incluem idade avançada, doenças metabólicas como diabetes, um estado geral de saúde comprometido, próstatas muito grandes e cirurgias consideradas mais difíceis. 


A perda urinária vai muito além de um inconveniente físico. Ela afeta drasticamente a qualidade de vida dos pacientes, levando a um isolamento social preocupante. Muitos homens se afastam de familiares e amigos, deixam de participar de atividades sociais e até mesmo de sair de casa, movidos pelo medo do odor da urina ou da vergonha de molhar as roupas. Essa reclusão pode desencadear problemas psicológicos graves, como depressão e ansiedade. 


Além do sofrimento emocional, há o impacto físico. O contato constante da urina com a pele pode causar dermatite amoniacal, uma condição dolorosa que deixa a pele avermelhada, edemaciada e macerada na região genital. 


A gravidade da incontinência também influencia diretamente o tratamento e o custo. Quanto mais severa a perda, maior a necessidade de fraldas e produtos de higiene, elevando os gastos e dificultando ainda mais a rotina do paciente. 


A incontinência urinária masculina ainda é um tema cercado de tabus. Homens, em particular, tendem a evitar falar sobre o assunto, o que contribui para a falta de busca por tratamento. Essa vergonha é um dos maiores entraves para que a condição seja adequadamente diagnosticada e tratada. É fundamental quebrar esse estigma e encorajar os homens a procurarem ajuda. 


É importante ressaltar que a incontinência urinária também afeta a vida sexual. Muitos homens experimentam uma diminuição significativa do desejo e da atividade sexual, o que agrava ainda mais o impacto na qualidade de vida. 


Após o diagnóstico, a incontinência urinária pós-prostatectomia deve ser avaliada quanto à sua gravidade e causas. Uma avaliação completa busca identificar fatores que possam piorar a condição, como o consumo excessivo de líquidos ou um diabetes descompensado. 


A primeira linha de tratamento geralmente envolve mudanças de hábito, adequação da ingestão de líquidos e fisioterapia pélvica. Essas abordagens conservadoras são importantes e podem trazer melhora em muitos casos. Slings e fisioterapia podem ser efetivos em casos leves a moderados, mas, nos casos severos, o tratamento deve ser realizado com o esfíncter urinário artificial. No entanto, para pacientes com incontinência moderada a grave que não respondem a essas terapias, o tratamento cirúrgico se torna a opção mais eficaz. 


Entre as opções cirúrgicas, destaca-se o implante do esfíncter urinário artificial. Este dispositivo é indicado para incontinência urinária moderada a grave que persiste após, geralmente, um ano da cirurgia de prostatectomia, sem melhora com outras abordagens. 


O esfíncter urinário artificial é um dispositivo implantável que simula a função natural do esfíncter. Ele é composto por um manguito que envolve a uretra, uma bomba manual implantada no escroto e um reservatório. O manguito comprime a uretra, impedindo a saída de urina. Quando o paciente deseja urinar, ele aciona a bomba, que esvazia o manguito, permitindo a passagem da urina. Após a micção, o manguito se enche novamente, restaurando a continência. 


Este procedimento é considerado seguro, com um tempo médio de cirurgia de cerca de 1 hora e 30 minutos e uma internação de um a dois dias. O tempo de recuperação é de aproximadamente 40 dias, período necessário para a ativação do dispositivo. Os benefícios são imensos: o paciente recupera o controle urinário, a autoestima e a capacidade de retomar suas atividades diárias e sociais. 


O perfil ideal para o implante do esfíncter urinário artificial é um paciente jovem, com boa destreza manual e que apresente incontinência de esforço pura, sem outras condições que possam interferir no funcionamento da bexiga. 


Apesar da eficácia comprovada e dos benefícios transformadores, o acesso ao esfíncter urinário artificial ainda é um desafio no Brasil. Nos planos de saúde, o procedimento está no Rol da ANS e é coberto, bastando que o médico indique o tratamento. No entanto, no Sistema Único de Saúde (SUS), a realidade é diferente. 
A ausência do esfíncter urinário artificial na lista de procedimentos da CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) impede sua cobertura em larga escala na rede pública. Isso gera uma profunda desigualdade na jornada de cuidado, pois pacientes que não podem arcar com o procedimento de forma particular ficam sem acesso a uma solução que poderia restaurar sua dignidade e qualidade de vida. 


Em 2023, apenas 132 procedimentos de implante de esfíncter urinário artificial foram registrados na saúde suplementar. Considerando que cerca de 5.800 pacientes são submetidos à prostatectomia radical no SUS e mais de 9.000 nos convênios anualmente, e que uma parcela significativa desses pacientes pode desenvolver incontinência grave, é evidente que realizamos muito menos procedimentos do que o número de pacientes que poderiam se beneficiar. 


Os principais entraves para a ampliação desse tratamento no SUS incluem a falta de profissionais treinados para o implante, o desconhecimento por parte de alguns serviços sobre a eficácia da tecnologia e, em muitos casos, a falta de indicação por parte de médicos que atuam na área oncológica. Muitos pacientes não são tratados porque a solução não lhes é apresentada. 


É imperativo que a sociedade, os tomadores de decisão e a comunidade médica se unam para ampliar a conscientização e o acesso ao tratamento da incontinência urinária masculina. A incorporação do esfíncter urinário artificial no SUS é um passo fundamental para garantir que todos os homens, independentemente de sua condição socioeconômica, tenham a chance de recuperar sua qualidade de vida após a cura do câncer. 


Precisamos que mais urologistas estejam cientes da importância de identificar e encaminhar pacientes com incontinência urinária, mesmo que leve ou moderada, para avaliação e tratamento adequado. Muitos homens que se submetem à cirurgia de próstata e ficam com perda de urina, mesmo que em menor grau, são subestimados. É crucial que esses homens busquem ativamente um urologista que possa oferecer o tratamento adequado ou encaminhá-los a quem o faça. 


A conscientização deve ser ampliada em todos os níveis: para a população, para que os homens busquem ajuda sem vergonha; para os profissionais de saúde, para que indiquem o tratamento correto; e para os gestores públicos, para que invistam em tecnologias que transformam vidas. 


A incontinência urinária masculina pós-prostatectomia não é uma sentença. É uma condição tratável, e o esfíncter urinário artificial é uma prova disso. Ao garantir o acesso a essa tecnologia, não apenas restauramos a continência, mas devolvemos a esses homens a dignidade, a autoestima e a liberdade de viver plenamente.*

*Artigo publicado no dia 19/09/25. O esfíncter urinário artificial foi oficialmente incorporado ao SUS no dia 8 de janeiro de 2026, por meio da publicação da Portaria SCTIE/MS nº 102. 


 

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