Sistema Urinário
Incontinência urinária após o câncer de próstata: o tabu masculino que ainda precisa de solução
Por Dr. Alexandre Fornari, Coordenador do Departamento de Disfunções Miccionais da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)
O avanço da medicina tem proporcionado a milhares de homens a cura do câncer de próstata, uma das doenças mais prevalentes na população masculina. No entanto, para muitos, a vitória sobre o câncer pode vir acompanhada de um desafio persistente e, muitas vezes, silenciado: a incontinência urinária. Essa condição, que afeta uma parcela significativa dos pacientes submetidos à prostatectomia radical, impacta profundamente a qualidade de vida e a autoestima, exigindo uma abordagem mais ampla e acessível.
A incontinência urinária masculina é caracterizada pela perda involuntária de urina. Após a cirurgia de retirada da próstata (prostatectomia radical), ela se torna comum devido à proximidade da próstata com o esfíncter urinário, o músculo responsável por controlar a saída da urina. Durante o procedimento, pode ocorrer uma lesão nesse esfíncter, levando à incontinência.
Inicialmente, a incontinência pode ser transitória, melhorando nos primeiros meses após a cirurgia. Contudo, em cerca de 3% a 4% dos pacientes, a condição persiste de forma significativa, tornando-se um problema crônico. Os principais fatores de risco para essa persistência incluem idade avançada, doenças metabólicas como diabetes, um estado geral de saúde comprometido, próstatas muito grandes e cirurgias consideradas mais difíceis.
A perda urinária vai muito além de um inconveniente físico. Ela afeta drasticamente a qualidade de vida dos pacientes, levando a um isolamento social preocupante. Muitos homens se afastam de familiares e amigos, deixam de participar de atividades sociais e até mesmo de sair de casa, movidos pelo medo do odor da urina ou da vergonha de molhar as roupas. Essa reclusão pode desencadear problemas psicológicos graves, como depressão e ansiedade.
Além do sofrimento emocional, há o impacto físico. O contato constante da urina com a pele pode causar dermatite amoniacal, uma condição dolorosa que deixa a pele avermelhada, edemaciada e macerada na região genital.
A gravidade da incontinência também influencia diretamente o tratamento e o custo. Quanto mais severa a perda, maior a necessidade de fraldas e produtos de higiene, elevando os gastos e dificultando ainda mais a rotina do paciente.
A incontinência urinária masculina ainda é um tema cercado de tabus. Homens, em particular, tendem a evitar falar sobre o assunto, o que contribui para a falta de busca por tratamento. Essa vergonha é um dos maiores entraves para que a condição seja adequadamente diagnosticada e tratada. É fundamental quebrar esse estigma e encorajar os homens a procurarem ajuda.
É importante ressaltar que a incontinência urinária também afeta a vida sexual. Muitos homens experimentam uma diminuição significativa do desejo e da atividade sexual, o que agrava ainda mais o impacto na qualidade de vida.
Após o diagnóstico, a incontinência urinária pós-prostatectomia deve ser avaliada quanto à sua gravidade e causas. Uma avaliação completa busca identificar fatores que possam piorar a condição, como o consumo excessivo de líquidos ou um diabetes descompensado.
A primeira linha de tratamento geralmente envolve mudanças de hábito, adequação da ingestão de líquidos e fisioterapia pélvica. Essas abordagens conservadoras são importantes e podem trazer melhora em muitos casos. Slings e fisioterapia podem ser efetivos em casos leves a moderados, mas, nos casos severos, o tratamento deve ser realizado com o esfíncter urinário artificial. No entanto, para pacientes com incontinência moderada a grave que não respondem a essas terapias, o tratamento cirúrgico se torna a opção mais eficaz.
Entre as opções cirúrgicas, destaca-se o implante do esfíncter urinário artificial. Este dispositivo é indicado para incontinência urinária moderada a grave que persiste após, geralmente, um ano da cirurgia de prostatectomia, sem melhora com outras abordagens.
O esfíncter urinário artificial é um dispositivo implantável que simula a função natural do esfíncter. Ele é composto por um manguito que envolve a uretra, uma bomba manual implantada no escroto e um reservatório. O manguito comprime a uretra, impedindo a saída de urina. Quando o paciente deseja urinar, ele aciona a bomba, que esvazia o manguito, permitindo a passagem da urina. Após a micção, o manguito se enche novamente, restaurando a continência.
Este procedimento é considerado seguro, com um tempo médio de cirurgia de cerca de 1 hora e 30 minutos e uma internação de um a dois dias. O tempo de recuperação é de aproximadamente 40 dias, período necessário para a ativação do dispositivo. Os benefícios são imensos: o paciente recupera o controle urinário, a autoestima e a capacidade de retomar suas atividades diárias e sociais.
O perfil ideal para o implante do esfíncter urinário artificial é um paciente jovem, com boa destreza manual e que apresente incontinência de esforço pura, sem outras condições que possam interferir no funcionamento da bexiga.
Apesar da eficácia comprovada e dos benefícios transformadores, o acesso ao esfíncter urinário artificial ainda é um desafio no Brasil. Nos planos de saúde, o procedimento está no Rol da ANS e é coberto, bastando que o médico indique o tratamento. No entanto, no Sistema Único de Saúde (SUS), a realidade é diferente.
A ausência do esfíncter urinário artificial na lista de procedimentos da CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) impede sua cobertura em larga escala na rede pública. Isso gera uma profunda desigualdade na jornada de cuidado, pois pacientes que não podem arcar com o procedimento de forma particular ficam sem acesso a uma solução que poderia restaurar sua dignidade e qualidade de vida.
Em 2023, apenas 132 procedimentos de implante de esfíncter urinário artificial foram registrados na saúde suplementar. Considerando que cerca de 5.800 pacientes são submetidos à prostatectomia radical no SUS e mais de 9.000 nos convênios anualmente, e que uma parcela significativa desses pacientes pode desenvolver incontinência grave, é evidente que realizamos muito menos procedimentos do que o número de pacientes que poderiam se beneficiar.
Os principais entraves para a ampliação desse tratamento no SUS incluem a falta de profissionais treinados para o implante, o desconhecimento por parte de alguns serviços sobre a eficácia da tecnologia e, em muitos casos, a falta de indicação por parte de médicos que atuam na área oncológica. Muitos pacientes não são tratados porque a solução não lhes é apresentada.
É imperativo que a sociedade, os tomadores de decisão e a comunidade médica se unam para ampliar a conscientização e o acesso ao tratamento da incontinência urinária masculina. A incorporação do esfíncter urinário artificial no SUS é um passo fundamental para garantir que todos os homens, independentemente de sua condição socioeconômica, tenham a chance de recuperar sua qualidade de vida após a cura do câncer.
Precisamos que mais urologistas estejam cientes da importância de identificar e encaminhar pacientes com incontinência urinária, mesmo que leve ou moderada, para avaliação e tratamento adequado. Muitos homens que se submetem à cirurgia de próstata e ficam com perda de urina, mesmo que em menor grau, são subestimados. É crucial que esses homens busquem ativamente um urologista que possa oferecer o tratamento adequado ou encaminhá-los a quem o faça.
A conscientização deve ser ampliada em todos os níveis: para a população, para que os homens busquem ajuda sem vergonha; para os profissionais de saúde, para que indiquem o tratamento correto; e para os gestores públicos, para que invistam em tecnologias que transformam vidas.
A incontinência urinária masculina pós-prostatectomia não é uma sentença. É uma condição tratável, e o esfíncter urinário artificial é uma prova disso. Ao garantir o acesso a essa tecnologia, não apenas restauramos a continência, mas devolvemos a esses homens a dignidade, a autoestima e a liberdade de viver plenamente.*
*Artigo publicado no dia 19/09/25. O esfíncter urinário artificial foi oficialmente incorporado ao SUS no dia 8 de janeiro de 2026, por meio da publicação da Portaria SCTIE/MS nº 102.