Coração
Fibrilação Atrial: Protocolos que salvam vidas e evitam AVCs podem também reduzir custos nos hospitais
Por dr. Marden Tebet, médico cardiologista intervencionista
Como cardiologista, lido diariamente com as consequências preocupantes da fibrilação atrial (FA). Essa arritmia, que afeta, em média, de 2 a 4% da população¹, e alarmantes 10% dos idosos acima de 80 anos². A FA aumenta significativamente o risco de acidente vascular cerebral (AVC) devido à formação de coágulos no coração, que podem se deslocar para o cérebro e obstruir o fluxo sanguíneo. Estima-se que a FA aumente em até 5 vezes o risco de AVC, tornando-se um dos principais fatores de risco modificáveis para essa condição grave.
A projeção indica que, somente nos Estados Unidos, serão mais de 12 milhões de pacientes com FA até 2050³, o que torna essa questão ainda mais urgente. A boa notícia é que temos ferramentas eficazes para prevenir o AVC em pacientes com FA. A má notícia é que, em muitos hospitais, essas ferramentas não estão sendo utilizadas em todo o seu potencial.
A anticoagulação é, sem dúvida, a pedra angular da prevenção de AVC na FA. No entanto, nem todos os pacientes podem se beneficiar dessa terapia. Em muitos casos, pacientes com FA não podem ou não devem usar anticoagulantes devido a sangramentos, interações medicamentosas ou outras condições clínicas. Isso os deixa desprotegidos e vulneráveis ao AVC. É nesse cenário que a oclusão do apêndice atrial esquerdo (OAAE) se torna uma alternativa crucial. Estudos clínicos robustos demonstram que a OAAE é tão eficaz quanto os anticoagulantes na prevenção de AVC em pacientes com FA, com a vantagem adicional de eliminar o risco de sangramento associado ao uso contínuo de medicamentos anticoagulantes.
Apesar de sua eficácia comprovada e de sua segurança, a oclusão do apêndice atrial esquerdo (OAAE) ainda é subutilizada em muitos hospitais brasileiros. Enquanto nos Estados Unidos realizam-se cerca de mil procedimentos por semana, no Brasil, em 2024, foram realizados apenas 400 mil. Essa discrepância alarmante revela uma lacuna crítica nos protocolos de tratamento da FA e uma falta de familiaridade com o procedimento por parte de muitos profissionais de saúde. A discussão ainda gira, principalmente, em torno dos anticoagulantes, negligenciando a OAAE como uma opção valiosa.
A anticoagulação é, sem dúvida, a pedra angular da prevenção de AVC na FA. No entanto, nem todos os pacientes podem se beneficiar dessa terapia. Em muitos casos, pacientes com FA não podem ou não devem usar anticoagulantes devido a sangramentos, interações medicamentosas ou outras condições clínicas. Isso os deixa desprotegidos e vulneráveis ao AVC. É nesse cenário que a oclusão do OAAE se torna uma alternativa crucial.
A OAAE é um procedimento minimamente invasivo que consiste em fechar o apêndice atrial esquerdo, uma pequena bolsa no coração onde a maioria dos coágulos sanguíneos se forma em pacientes com FA. Ao ocluir essa estrutura, eliminamos a principal fonte de trombos e reduzimos drasticamente o risco de AVC, oferecendo uma proteção comparável à anticoagulação para pacientes que não podem utilizá-la.
Como médico, vejo de perto o impacto dessa negligência. Pacientes que poderiam se beneficiar da OAAE acabam sofrendo AVCs incapacitantes, com consequências para suas vidas e para suas famílias. Além do sofrimento, a falta de protocolos adequados para a FA também tem um impacto significativo nos custos do sistema de saúde. O tratamento de um acidente vascular cerebral é caro e complexo, e muitas vezes exige internações prolongadas e reabilitação intensiva. A prevenção, nesse caso, é não apenas mais humana, mas também mais econômica.
É hora de mudar essa realidade. Os hospitais precisam implementar protocolos abrangentes de FA que incluam a OAAE como uma opção terapêutica a ser considerada em pacientes com contraindicações à anticoagulação. Esses protocolos devem ser baseados em evidências científicas sólidas e devem ser adaptados às necessidades específicas de cada paciente, considerando a estratificação de risco com o escore CHA₂DS₂-VASc.
Além disso, é fundamental investir em educação médica continuada para capacitar os profissionais de saúde sobre os benefícios e as indicações da iniciativa. Muitos pacientes com FA estão dentro do hospital, e não no consultório, e é crucial que os médicos generalistas, cardiologistas hospitalares e plantonistas estejam cientes dessa opção. A criação de um sistema de alerta, um “red flag”, para pessoas com sangramentos ou eventos adversos relacionados à anticoagulação, pode auxiliar na identificação de candidatos à OAAE.
A implementação de protocolos abrangentes não é apenas uma questão de boa prática médica, mas também uma questão de responsabilidade social. Ao proteger nossos pacientes do AVC, estamos não apenas salvando vidas, mas também reduzindo custos e melhorando a qualidade de vida de toda a população.
Portanto, apelo aos gestores hospitalares, aos cardiologistas e a todos os profissionais de saúde: vamos unir forças para implementar protocolos de FA que realmente façam a diferença. A vida de nossos pacientes pode depender disso.